Sobre a amizade entre Lula e Geddel

Sobre a amizade entre Lula e Geddel

Em caso de que estejamos verdadeiramente pretendo discutir política, temos que compreendê-la primeiro. Em muitos aspectos, o sentido comum do brasileiro que culturalmente não discute política tende a ter certezas irrefutáveis de como se deve gerir o destino político nacional, assim as opiniões são tidas como certezas uma vez que o conhecimento é repetido ao invés de criado.

Para além das dúvidas que tenho sobre as condutas do presidente Lula, não posso aceitar tudo que uma mídia ideologizada me diz. Neste aspecto, temos também que perceber que, depois do golpe de 2016 e da nítida transformação das pautas políticas do governo, o apaziguamento das massas e o consenso das forças conservadoras por detrás do impeachment, segue-se uma campanha forte em contra do único candidato possível da esquerda para as eleições presidenciais de 2018. Não podemos dar este fato por sentado ainda que pesem sobre o ex-presidente certas acusações mal respondidas. Eu tenho que ser crítico o suficiente para tentar compreender aquilo que critico, ou então estou apenas reproduzindo frases como “mas Geddel era ministro do Lula” na tentativa de suscitar uma possível amizade entre eles, num contexto quando o Ministro-Chefe da Secretaria de Governo de Michel Temer se vê envolvido em um escândalo com provas de cinquenta e um milhões de reais encontrados em um apartamento em Salvador que estava sob seus cuidados. Para ser sincero, não posso jurar que não exista a amizade entre Geddel e Lula, mas eu posso trazer um pouco mais de luz à discussão política, enfatizando conceitos que muitos cidadãos não-expertos em política não conseguem compreender. O conceito de hoje é a “articulação”, um âmbito das relações políticas de extrema importância para o contexto brasileiro fragmentado.

Política é representação, por isso muito se fala na sub-representação do congresso brasileiro quando 7% do corpo legislativo representam a 51% da população afrodescendente, e a mesma relação inversa passa com relação à porcentagem relativa de representação em questões de gênero, sexualidade e grupos religiosos não cristãos. Este mesmo congresso é o que votou em favor da destituição da presidente Rousseff “em nome da família, de Deus e do Brasil”, como se estivessem de fato representando valores sobrevalorados da sociedade “classe média” brasileira. Muitos destes estão envolvidos em práticas ilícitas de corrupção passiva e ativa e estão sob investigação. Mas que isso tem a ver com a articulação? Muito simples! A articulação política é o exercício da mobilização de ideias entre agentes, antagônicos ou harmônicos, destinados para um fim comum. Assim como aconteceu na orquestração do golpe. Muitas vezes as intenções dos agentes envolvidos nos processos articulares são diferentes uma da outra, porém se encontram na homogeneidade do resultado final derivado deste “somar de forças”. Não somente para um projeto específico, em acordos, reformas ou estatutos, mas em todos os lugares, incluindo a tua reunião de condomínio, haverá um momento em que se unem as forças em prol do bem comum, e com um objetivo bem específico, que permite que possamos viver bem uma vez que regulemos o modo de todos.

O Brasil é um sistema multipartidário desde 1979. Com a extinção do bipartidarismo, novos partidos apareceram e novas possibilidades de coligações surgiram. Com a nova constituição de 1988, as eleições presidenciais voltariam a ser diretas com uma única chapa para presidente e vice. Todos os governos eleitos desde a redemocratização até o momento advieram da força eleitoral que resulta da combinação da quantidade de eleitores dos partidos envolvidos em acordos e alianças resultantes das articulações políticas. Estas coligações criam chapas presidenciais que devem reconhecer e conceder cargos de confiança aos partidos envolvidos. Assim que muitos cargos de ministros, chefia de estatais e secretários de pastas estratégicas entram no jogo das alianças partidárias no «toma lá da cá» do exercício político. Não devemos emitir certezas de competência política quando estas relações articuladas interpartidárias não se baseiam em uma questão de amizade pessoal baseada na confiança da moral e da ética entre políticos presentes em uma foto num comício ou evento, e sim conformam uma relação lógica e racional embasada pela aliança partidária.

Desde a redemocratização, somente chapas coligadas concorreram ao executivo. Em 1989 com o “Movimento Brasil Novo” coligando os PRN, PSC, PST e PTR com Collor e Franco, contra a coligação “Frente Brasil Popular” cuja união do PT, PSB e PCdoB lançaram Lula e Bisol na campanha. Em 1994 a frente de direita “União, Trabalho e Progresso” do PSDB, PFL e PTB elegeram a Fernando Henrique e vice Marco Maciel, contra o “Frente Brasil Popular pela Cidadania”, uma chapa que incluía o PT, PSB, PPS, PV, PCdoB, PCB e PSTU que candidatavam a Lula e Mercadante. A mesma chapa conservadora foi vencedora das próximas eleições e 1998, contra a chapa de esquerda “União do Povo Muda Brasil” em cuja plataforma se encontrava Lula e Brizola. A partir de 2002, em vista de reduzir o radicalismo do PT e dialogar com outros setores como o empresariado, industriais e banqueiros -através da articulação política- já ganhava a chapa Lula (PT) e José Alencar (PL) contra a “Grande Aliança” do PSDB e PMDB que lançavam a Serra e a Camata. Futuramente, a partir de 2006, José Alencar se filiaria ao PMDB e a coligação PT/PMDB nasceria e seguiria vigente até sua ruptura no governo Dilma Rousseff em 2016. Neste sentido, se não percebemos a articulação como um processo vital da engrenagem de forças partidárias no cenário político, não podemos então prosseguir com uma discussão pertinente e válida sobre as relações “laborais” entre membros deste grupo.

Do mesmo modo como Temer foi o indicado pelo PMDB para ser vice da chapa Rousseff/Temer, cada partido escolhe seus representantes no jogo de forças dentro das coligações. Geddel era do PMDB pese que o governo fosse do Lula, e no esquema político o discurso é essencial para cooptar eleitores e é uma questão de economia do discurso político em base à divisão ideológica existente no campo político nacional, e por isso veremos Lula falando bem do Geddel, assim como vemos Fernando Henrique falando bem de Calheiros, e assim como veremos Dilma elogiando ao próprio Temer, cada qual em sua conjuntura de aliança político-partidária. Temos muitos ministros do PMDB em governos anteriores do PT e do PSDB, e em verdade não podem ser julgados segundo supostas relações de amizade somente porque compartiram elogios em discursos de campanha. Seguindo essa lógica, deveríamos criticar igualmente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) que nomeou Gilmar Mendes para o STF em 2002, e também nomeou a Eliseu Padilha em 1997 e a Renan Calheiros em 98 como seus ministros, ambos do PMDB. Lula teve tanto poder de escolha sobre Geddel em seu cargo quanto Fernando Henrique com relação aos peemedebistas nomeados por seu partido para os cargos de confiança disponíveis. No entanto não vejo pessoas evocando a amizade de Calheiros com Cardoso durante a época de seu afastamento por ser réu em processo criminal em dezembro de 2016 e nem na época do Renangate em 2007. Não podemos basear nossas certezas políticas nas opiniões infundadas como “mas fulano estava com beltrano nesta foto” quando, para entender a política, há de despir-se dos pré-conceitos referentes à interação social e compreender que até inimigos fazem alianças em prol de um mesmo objetivo. Como só temos quatro grandes presidentes desde a redemocratização, a comparação com presidentes anteriores e recentes é quase inevitável, mas isso não é fruto de uma mesquinhez ideológica de “criticar” a direita porque estão “criticando” a esquerda, mas sim para apontar que os processos de articulação existem em todos os âmbitos, em todos os governos e entre todas as pessoas.

Temos que ser mais inteligente quando falamos de política, que é tão complexo quanto uma neurocirurgia ou um sistema operativo, no entanto não vemos politólogos ou sociólogos discutindo técnicas cirúrgicas, nem cirurgiões dando pitaco em desenvolvimento de software. Assim, quando passamos a compreender que a política é feita de complexas relações e de intricados mecanismos de produção e reprodução de capital simbólico e de carisma pessoal, quando entendemos que a sociedade não sabe enxergar a profissionalização técnica da política por vias das relações sociais embasadas em interesses, então estamos começando um processo de autoaprendizagem e, principalmente, mais perto de evitar repetir coisas como “é tudo farinha do mesmo saco” na tentativa de fundamentar nossa argumentação. Se quisermos cruzar a linha generalizada do “está tudo corrompido”, temos que começar a descorromper as próprias verdades que carregamos. Quando falta fundamento nestas verdades, elas servirão mais como «estigmatizadoras» de indivíduos que «melhoradoras» da realidade social. E isso, meu caro, não melhora a realidade de ninguém.

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