Reflexão Sociopolítica XI – Socialismo, Ditadura e Venezuela

Reflexão Sociopolítica XI – Socialismo, Ditadura e Venezuela

“Olha o que o socialismo fez na Venezuela” comentaram amigos meus, como se o epistemologicamente oposto ao capitalismo tivesse que ser perfeito. Mas voltamos à mesma tautologia falsa de culpar a Instituição Social em detrimento da integridade dos indivíduos de uma minoria da qual derivam ações nocivas à maioria reclamante. Acostumamos-nos a pensar dualmente, que o que não é bom necessariamente é ruim. Somado à falta de articulação e de compreensão sobre aquilo que é discutido, as hierarquias morais que legitimam o bem e o mal são pautadas por extremos muito intensos, e incidem na paz e na ordem cotidianas ainda que pouco entendidas pelos indivíduos. Aquele que exige que o socialismo seja perfeito não enxerga os efeitos nocivos do capitalismo desde seu ponto de vista, e é isso que colocamos em questão: a capacidade do intelecto humano de desmembrar os conceitos que são supostamente fechados ainda que caiba a cada um compreendê-los como conseguem. Há elementos benéficos do socialismo e do capitalismo, e que como em toda boa gestão necessita-se encontrar um equilíbrio onde o benefício seja comum e que o ganho não mais seja relativo.

Como já discutimos anteriormente, a política, os partidos políticos, o dinheiro, o mercado, a economia, o socialismo e o capitalismo, não são de todo ruins, e seguramente suas primeiras intenções, ou ao menos o discurso objetivo que se vende, se relacionam de algum modo com um beneficio que seria de acesso generalizado. Ruim é o que se tem feito por parte de certos sujeitos mal intencionados, a partir das novas capacidades de ação social adquiridas na legitimação válida inerente à toma de novas posições sociais. A pessoa naturalmente ruim será ruim dentro de qualquer sistema, seja ele socialista ou capitalista, incidindo sobre as políticas que de fato regulam o cotidiano das pessoas em prol de ascensão social ou uma mínima manutenção de sua posição atual. Todo sistema oferece ferramentas que podem ser utilizadas dependendo dos fundamentos racionais de quem perpetra a ação. No entanto, livrando-nos do subjetivismo puro, todo agente está restringindo por regras de um jogo social, e mais ainda, se valerá como sujeito a partir dos elementos simbólicos incorporados, o que é determinado pelas oportunidades possíveis e prováveis.

Toda ditadura é ruim. E uma ditadura é, sobretudo um sistema onde a forma de pensar deve seguir uma regra única: uma crença, um corte de cabelo, uma língua, um conjunto de comportamentos proibidos e instrumentos de censura de tudo aquilo que possa representar uma ameaça ao monopólio do pensamento, desde as posições de poder. No entanto, como posso distinguir entre uma ditadura socialista e uma ditadura fascista? E mais que isso, será que são apenas estas duas formas de ditaduras que existem? Ou será que existem ditaduras que não nos damos conta?

É aqui que mora o que se chama ditadura branca, ou a ditadura que não aparece ainda que exista. Em uma ditadura branca, mais que um Executivo com alto poder e a falta de espaço no âmbito governante para a oposição ideológica, existe uma forma de pensar muito peculiar: o egoísmo altruísta de uma nação-mercado que aprendeu histórica e culturalmente a vender seu tempo e seu conhecimento em troca de benefícios que façam sua vida melhor. Quando se pensa em «trabalho» apenas o relaciona com «dignidade», «esforço» ou «sucesso», ainda que a maioria das pessoas que conheço é infeliz, estressada, odeia segundas-feiras e sonha acordada com uma vida distante de sua realidade. Quando se pensa em «mercado» se pensa em «oportunidade», «propriedade» ou «ambição», ainda que muitos amigos e amigos de amigos, incluindo a mim mesmo, tenhamos problemas econômicos frequentemente. Nos ensinaram a pensar de uma forma única e qualquer um que tentemos criticar estes modos pré-concebidos de pensamento será posto à margem do social. Já tentastes criticar, ou propor alternativas à «cultura do trabalho» sem ser chamado de «vagabundo»? Já tentastes debater temas urgentes como aborto, legalização das drogas e/ou imigração sem vozes alteradas por falta de argumentos?

Sabe o que mais define uma ditadura branca? É um sistema onde o governo executivo assumiu o poder de forma paralela e duvidosa com o apoio de outras instituições poderosas e todas com o monopólio de fazer e executar as leis que as beneficiem. Além do mais, em uma ditadura branca como ocorre no Brasil atualmente, há uma população subdesenvolvida intelectualmente, com uma capacidade binária de compreensão de mundo o que, sem dúvida, restringe as capacidades de raciocinar diferentemente. Criticar é bom, mas não aprendemos a tomar a verdade negativa como boa, por uma razão muito simples: o próprio poder intrínseco do ato de ter razão, ou as capacidades cognoscitivas geradas por um capital cultural individual. Este só vale em um sistema onde o «conhecimento» tem reconhecimento social, o que lhe concede «valor», e «status», que permitem novas oportunidades. Há quem clame ter razão sem nem saber do que se fala, mas ainda assim, encontrará outros que com a mesma razão sem base bradarão aos ventos palavras de ódio de um campo discursivo extremo, binário, limitado, impossível de desconstruir depois de certo tempo.

Esta deficiência intelectual é histórica, e é a causa do porquê de não discutirmos nosso passado escravagista que hoje veste outras vestes mais “democráticas e liberais”. É a razão de crermos que política se iguala a entretenimento e, como um gosto não se deva discutir. É a razão de não aceitarmos que quase todos os direitos trabalhistas e de seguridade social foram conquistados pelos sindicatos «comunistas cheio de vagabundos» e que eles são importantes para o bem-estar da imensa população trabalhadora. É a razão pela qual legitimamos os ganhos estratosféricos como os dividendos de U$6 bilhões do Itaú porque também queremos ganhar um salário condizente com um estilo de vida razoável. É a razão pela qual nossos sonhos e objetivos de vida estão pautados por conceitos liberais de consumo, sucesso pessoal, estabilidade laboral e financeira. E de fato, isto não está mal. O que está mal é como querem que se trabalhe, é como se deslegitimam os sindicatos e a articulação política, é como se desfazem de anos de conquistas e direitos garantidos, é como rasgam a constituição e como rapinam a nação à luz do dia, diante de todos sem nem mais pudor ou tentativa de esconder.

O socialismo não destruiu a Venezuela, mas sim a incapacidade de articular-se com os benefícios que podem trazer um mercado aberto e uma competição sadia. Da mesma forma o capitalismo em si não destruiu o mundo, mas sim há pessoas que se apropriam de crenças básicas deste sistema como «ambição pessoal» e «legitimidade de propriedade privada» para validar suas ações atrozes no hipermercado financeiro, ou às escuras em jantares secretos, e que impactam sobre a vida de milhões da noite pro dia. No entanto, teoricamente, tanto o socialismo quanto o capitalismo são úteis para compreendermos o mundo em termos sociais, econômicos e políticos; assim mesmo na realidade de uma democracia verdadeira, se faz necessária a articulação e todos os instrumentos que ela envolve: participação cidadã, sindicatos, fóruns, universidades, organizações partidárias, todo âmbito onde agentes/sujeitos possam articular o sentido das coisas, buscando sempre a melhor forma de adequar o mais benéfico de ambos os extremos a um meio-campo frutífero de boa convivência. Afinal, não basta querer paz e sair por aí gritando ódio aos quatro cantos. E ainda assim não basta. Um país em plena ditadura branca como Brasil solicitando carta democrática à Venezuela diante de órgãos internacionais é uma hipocrisia sem tamanho. No que diz respeito às atrocidades impositivas, nenhum dos países envolvidos têm um histórico de promover um ambiente plural, saudável e democrático.

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