Reflexão Sociopolítica X – Sindicatos

Reflexão Sociopolítica X – Sindicatos

Esta greve geral foi chamada pelos sindicatos porque o imposto sindical deixou de ser obrigatório? Sim e não. Não creio que seja o único motivo para uma paralisação deste nível, e sim que este é um entre muitos fatores pelos quais houve a grande manifestação popular no último dia 28 de abril. Mas por que seria tão ruim uma greve conclamada pelos sindicatos? Quando foi que o sindicato se tornou tão ruim? Na verdade, qual é o papel social do sindicalismo na vida dos trabalhadores?

Os sindicatos nasceram exatamente porque houve a necessidade de articulação no âmbito laboral, de mobilização, e isso é de extrema importância para o bem-estar que tanto desfrutam após a conquista de tantos direitos que permitem compartir a vida profissional da vida privada, sem excessos, para que possamos “aproveitar da vida”. Mas parece que há vidas que merecem tirar mais proveito que outras, ou apenas é assim que pensam aqueles que negam a importância dos sindicatos. Numa sociedade mal informada sindicato é sinônimo de «comunismo» ou de «esquerda», mas verdade seja dita encontramos organizações sindicais até entre membros de empresas privadas.

O Estado-absoluto passou a ser Estado-nação quando os partidos políticos começaram a unir não somente a capital com o interior, mas também localidades rurais entre si, construindo um sentimento homogêneo de pertencimento entre os membros de uma comunidade nacional além dos limites da cidade-capital. Isso se chama articulação. E através dela se deu a emergência do «povo» como agente social e histórico, na construção simbólica da narrativa que rege as «verdades culturais» de uma sociedade nacional. Este mesmo processo de mobilização ocorre em outros âmbitos específicos, já que toda articulação pressupõe um «efeito de fronteira» e «fenômenos de equivalência». Isso quer dizer que sempre e quando há uma ideologia que impõe um antagonismo, uma inimizade social, então há articulação de ambos os lados para que possam “organizar o sentido” de seu «inimigo» através de pontos nodais de compreensão geral, compartido entre todos igualmente. Articulação é um processo de homogeneização de sentido, e é essencial para qualquer organização, tanto no âmbito nacional, quanto internacional e no local, nas empresas, nas escolas, nas reuniões estratégicas, nos encontros partidários tanto de direita quanto de esquerda. E na verdade isso quer dizer que, devido aos sindicatos, muitos trabalhadores hoje gozam de direitos como décimo terceiro, férias, horas extras, insalubridade, noturno, licença saúde, redução de carga horária, maternidade e paternidade, segurança social, aposentadoria entre outros.

Mas quando foi que os sindicatos se tornaram tão malignos? Tão «comunista-esquerdopata-violento-blackbloc»? Se dependêssemos da benevolência dos patrões, ainda viveríamos em um conto de fadas “casa grande e senzala” onde o escravo é rebelde e o senhor, generoso. Não houve direito dado, nem presenteado no natal. Não se conquista um direito somente com diálogo, principalmente em uma sociedade em que a minoria poderosa usa qualquer violência para manter seus privilégios. Quando digo violência me refiro a toda tentativa do Estado de reduzir sua responsabilidade perante os desastres que o mesmo perpetra à nação. E quando falo de privilégios não falo de quem ganha R$25.000,00 por mês. Isso é viver com conforto, como classe média, viajando uma vez ao ano com carro e restaurante francês. Mas não significa ser parte da minoria mais rica. Esta pessoa, sim imita aos mais ricos e toma para si suas dores e suas lutas. Os mais ricos, os bilionários, não têm sindicatos, eles têm ilhas privadas e jantares suntuosos com presidentes ilegítimos e estão isentos de impostos desfrutando muitos acordos com os poderosos.

O problema do sindicalismo é o que fizeram dele em uma sociedade embasada na aceitação cultural em forma de reconhecimento do poder da posição social. O mesmo fizeram do capitalismo em uma sociedade embasada na avareza individualista e egoísta que é meritocraticamente legítima. É tão legítimo querer ganhar muito hoje em dia, independente de como, que o Eike Batista foi solto, muitos políticos enriquecidos ilicitamente desfrutam a vida, e Rafael Braga segue preso, assim como quem roubou pão para comer. Os sindicatos conseguiram muito para melhorar a vida de quem trabalha, só está cheio de muitas pessoas que, hoje, tiram proveito de suas posições conseguidas dentro das hierarquias institucionalizadas na organização. O ruim é o que fizeram destes sindicados, não o que eles são. Igual ocorre com o capitalismo, que em si é um sistema muito bom de valoração e intercâmbio igualitário de produtos, mas o que fizeram dele foi um sistema onde a competição sadia esconde uma ambição desenfreada capaz de qualquer coisa para manter sua posição econômica e social, inclusive não reconhecer outras lutas e outras ideias que também fazem parte da sociedade. O mesmo passa com os partidos políticos, que em um sistema partidário é crucial para o funcionamento do diálogo entre ideologias e para a mobilização e articulação de sentido, projetos e «futuro», mas onde internamente, ocorre uma corrosão moral devido à distorção de valores culturais dos indivíduos que conseguem uma posição determinada.

Quando o governo retira a obrigatoriedade do imposto sindical, está também retirando seu apoio às organizações trabalhistas e aos setores laborais, ou seja, de todos nós, incluindo aos de classe-média não bilionários. Alguns creem que a obrigatoriedade da taxa sindical fere a liberdade de escolher ou não aportar ao sindicato; estes mesmos aproveitam muitos dos direitos que os sindicatos lhes conseguiram através da história; enquanto muitos não têm a liberdade de aumentar sua renda nem de querer melhorar sua condição em caso de que se retire a legitimação legal da negociação coletiva e prevaleçam os acordos individuais.

Muitos se dizem benevolentes e de bom coração, muitos pagam 36% de imposto de renda e se dizem honestos por terem declarado seus ganhos idoneamente, mas neste momento específico preferem deslegitimar uma greve nacional, muito maior que uma taxa sindical, escolhendo a este único ponto como decisivo para não reconhecer uma luta que lhes diz respeito. O que está em jogo não são apenas os direitos, mas a própria existência destes mesmos sindicatos para que continuem mantendo e adquirindo novos direitos pese as lutas internas e ações ilegítimas que ocorram dentro delas, assim como de qualquer organização em uma sociedade culturalmente enferma. Não haverá sindicato se a lei não reconhecer e obrigar sua existência, já que em sã consciência nenhum empresário incentivará a formação de sindicatos em suas empresas onde a negociação coletiva não vale mais de nada. Pensemos melhor naqueles que não são empreendedores, que dependem de salários e de estabilidade, que necessitam desta para projetar a futuro e que sonham com uma melhora de sua condição de vida. Pense nas conquistas laborais e saiba que se não tivéssemos sindicatos assegurados por direito, ainda estaríamos trabalhando doze horas, sem bem-estar e em condições precárias.

É papel dos sindicatos de trabalhadores conclamar aos trabalhadores para manifestações contra reformas que afetem diretamente a vida dos trabalhadores. É papel de quem paga impostos estapafúrdios ao Estado, porque tem um salário “digno”, de aportar um dia laboral às organizações sindicais que lutam pela melhoria de sua própria vida, que depende deste salário “digno”. Há muita coisa ruim ocorrendo dentro dos sindicatos e dos partidos, mas isso não quer dizer que os sindicatos e os partidos sejam ruins. Quando foi que demonizamos tanto o Estado e a «coisa» pública e nos simpatizamos tanto com um mercado historicamente desigual que cria milhões de pobres e miseráveis por dia? Não dá pra pregar o individualismo e querer o fim da violência pública. É hora de pensar um pouco no nosso lugar na sociedade e em quem queremos ser: classe média trabalhadora igualmente afetada pelas reformas, ainda que imite a ideologia da minoria mais rica; ou cidadãos e cidadãs trabalhadoras que igualmente afetadas pelas reformas lutam para que o futuro seja mais estável que o presente. Vamos ser afetados de igual modo, e pensem que a maioria não tem R$25.000,00 ao mês para sair do Brasil em caso que a realidade se torne insustentável.

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