Reflexão Sociopolítica IX: depressão de tarde de domingo

Reflexão Sociopolítica IX: depressão de tarde de domingo

Vou tentar deixar um ponto complexo bem claro. Um tema muito importante sobre o funcionamento da sociedade: a depressão da tarde de domingo. Mas antes volto um pouco no tempo da lógica temporal de sucessão de eventos dentro de uma “democracia neoliberal”.

Um pobre que ganha R$10,00 no dia tem, dentro deste poder de compra, uma variedade pequena de produtos compráveis. Um pobre que ganha R$20,00 diários, tem o dobro de poder de compra aumentando também as novas possibilidades devido à oferta de novos produtos os quais seu dinheiro alcança. Esta liberdade do consumidor é o limite de todo sentido social em uma “democracia neoliberal”. E isso tem tudo a ver com a depressão de tarde de domingo.

Quem ganha R$20,00 não quer ganhar menos, e talvez não deseje dividir seus ganhos com aquele de renda inferior. Aquele que ganha R$100,00 por jornada talvez não vá querer compartir seu capital econômico com “outros pobres”, e é bem provável que mantenha um comportamento de consumidor distinto – e inclusive político! – já que a este lhe cabe uma variedade de oferta muito maior que a de ambos primeiros. Quem destes três pode ir à academia ou comer quatro refeições ao dia? Quem destes três pode ir ao cinema? Quem destes três pode mandar o filho à escola? Quem tem mais a perder? No entanto se reclama muito da pobreza. Por que demônios ao invés de reclamar da pobreza, não lutam para que a renda mínima seja hipoteticamente R$20,00? Ou por que, diante de tanto recurso, não fazem todos “ricos”? Porque não dá e o sistema não permitirá jamais extinguir com o fundamento diferencial economicista.

Ninguém quer “ganhar menos”, nem “deixar de ganhar” quando já se “está ganhando”. E em um mundo liberal o ganho individual é tão legítimo quanto a própria identidade do sujeito. Ganhar está bem, mas o “querer ganhar” do rico tem a mesma legitimidade que o “querer ganhar” do pobre.  Aquele que já é muito rico por explorar o trabalho alheio encontra na legitimação do cidadão comum de querer ganhar mais, da ambição no mercado de trabalho, um legitimador de todas as estratégias de mais concentração de dinheiro para si mesmo. Porém, em um mundo democrático cada um tem uma voz e toda voz deveria, supostamente, ser ouvida. Quem ouve a voz do pobre nas grandes negociações e tratados comerciais? Quem ouve a voz do índio durante a implementação de madeireiras e campos de cultivo industrial? Quem ouve a voz do negro quando o bonito rico é branco?

O mal do mundo, e do Brasil, é que o “querer ganhar” já ultrapassou os limites da lógica e chegou ao campo da ignorância. Como diz Jessé Souza, a elite econômica no Brasil é burra e prefere enriquecer-se em curto prazo pela rapina e pela apropriação indevida em detrimento de um projeto de país-futuro. Neste projeto, diria eu, prezaria-se pelo alto reconhecimento das classes trabalhadoras estratégicas para o desenvolvimento cidadão: os professores e funcionários de escola pública. Se não há reconhecimento da instituição país à escola pública, então nem o povo mesmo a reconhecerá como válida. É por isso que no âmbito da educação privada, dentro das unidades familiares se gera uma cultura de leitura e de reconhecimento ao estudo, e mais expressivo quando crianças podem e querem ser enviadas à escola. Não se vai mais à escola para aprender e crescer intelectualmente, se vai para passar, titular-se e conseguir um bom emprego. A educação, quando se tem acesso (dinheiro ou oportunidade) se torna estratégica pensando-se em áreas laborais mais reconhecidas que retribuirão com salários mais altos.

Já falamos que dinheiro é acesso. Quem tem mais dinheiro tem mais acesso. Quem tem muito dinheiro tem muito acesso. Quem não tem nada fica à mercê de políticas públicas e das críticas de quem tem muito acesso, como se para “ganhar dinheiro” bastasse apenas querer.

Mas estamos no campo da ignorância, do ganho relativo sem importar as consequências. O dinheiro não é o vilão. O sistema capitalista se define pelo instrumento capital que faz funcionar e movimentar a sociedade. Sabemos que há exploração do trabalho e da mais valia, sabemos que há uma força de poder estrutural incidindo sobre o destino das pessoas, quanto elas ganham e quanto de acesso elas podem aceder. Mas o que deixamos de saber é que o capital pode ser benéfico quando bem usado, e na verdade é através dele que satisfazemos quase todos os prazeres da vida. E ao mesmo tempo não percebemos como o dinheiro, em uma “democracia neoliberal” principalmente, define tanto quem somos e o modo como pensamos. E é tão radical o pensamento, que faz a classe-média se autoproclamar rica enquanto há uma minoria abastada que provavelmente zomba de sua fácil manipulação.

Estamos em um meio campo sem extremos. Onde toda crítica pode ser proposta e toda contracrítica também. Onde é possível exaltar certos pressupostos conservadores em caso de que sejam benéficos ao desenvolvimento e ao progresso das pessoas comuns e menos privilegiadas. Permitamos que conceitos opostos possam dialogar entre si e encontrar um meio termo. Mas não tivemos acesso a esta capacidade intelectual. Não há na escola pública um ímpeto de fazer crescer a mente e o corpo, apenas as competências técnicas para uma mão de obra barata num mercado laboral. E então quando chegamos aí, e se chegamos, não vamos querer “ganhar menos”. E é aí que mora a questão.

Se dinheiro é tudo e te dá acesso, quem não tem acesso tentará obtê-lo à força, por meio de violência ou modos ilegais. E ainda assim quem tem muito acesso continuará a reclamar da violência. A quem tem acesso se oferece bem estar, benefícios e recompensas que o posiciona socialmente segundo seu poder de compra. Já parou pra se perguntar de quem são os trilhões de dólares de lucro dos bancos privados? Pertencem aos donos, aos acionistas, à mesa diretora e a todo aquele que detêm certa participação no lucro da empresa. São pessoas que ganham dinheiro dormindo, através do pagamento de juros compostos, de taxas, de rendimentos, de crédito. Muitos destes, que detêm outros monopólios industriais em outros setores e igualmente enriquecem enquanto dormem, buscam dentro das possibilidades que seu amplo acesso lhes permite meios de sustentar seus ganhos. Porém ganhos estratosféricos como os de um banco requerem políticas financeiras e monetárias favoráveis, que passam pelo corpo político que deveria representar a todos com políticas favoráveis ao desenvolvimento, que se distingue de enriquecimento. E assim, estes, com os maiores níveis de acesso, legitimam seu “querer ganhar mais” tanto quanto o “querer ganhar mais” do cidadão comum. Porém são seus meios similarmente legítimos?

O fato de perceber a escola pública como um gasto e deixá-la sucateada é boa para os ganhos imediatos de poucos no poder ou boa para o desenvolvimento populacional? Seria a reforma trabalhista e previdenciária de Temer benéfica para os ganhos imediatos de poucos no poder ou para o desenvolvimento nacional? Foi o golpe brando jurídico-parlamentar favorável aos mais ricos ou à população como um todo? Quem está representado democraticamente neste governo neoliberal? Viu como coisas que poderiam ir juntas não vão? Isso acontece quando submergimos neste mar de ignorância rasa e ódio vazio onde nenhum diálogo é possível sem pré-conceitualizar o «inimigo». Eu não posso criticar o mercado de trabalho sem que me chamem “comunista” ou “vagabundo”, nem para pedir melhores condições. Não posso querer encontrar meios de adquirir mais direitos e melhores benefícios para a vida porque é coisa de “quem não tem nada o que fazer”, diga-se de passagem, quem não trabalha. Afinal de contas há um Deus que ajuda a quem cedo madruga, pois trabalhar o dignificará e, portanto se submete a qualquer coisa, a qualquer emprego, sob qualquer condição. Especialmente se reformas como as do Temer passam. É preciso ganhar para viver em um mundo construído sobre o dinheiro. E te digo que quando a vida do trabalhador ficar mais difícil neste desgoverno atual, então a depressão da tarde de domingo será bem pior.

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