Reflexão Sociopolítica VIII

Reflexão Sociopolítica VIII

Todo autoritarismo é ruim. Seja de esquerda, direita, militar ou religioso. Todo ambiente cujo comportamento popular está regido por uma norma única é incapaz de oferecer liberdades às individualidades e às potencialidades de cada um. Isso quer dizer que toda ordem normativa automaticamente excluirá outros comportamentos que não condizem à regra. Toda lei institui um fora-da-lei. Até o momento, tentaram-se inúmeras formas de administrar a organização da sociedade-nação, e todas elas testemunharam a luta pelo monopólio destas ferramentas de poder: a capacidade de fazer leis, a habilidade de transformar o mercado e a possibilidade de controlar os corpos e as mentes. Em outras palavras, as antigas ferramentas de poder social baseados em coerção e violência agora se travestem de sanções econômicas, reformas trabalhistas, reorganizações educacionais, redução da renda e injustiças legais (como discutido anteriormente). Todos os meios que as famílias poderosas têm de se manter no poder e limitar o desenvolvimento das camadas menos privilegiadas e ascensão aos estratos superiores, que exclui desde a classe média até os miseráveis.

 

Quando alguém detém o poder total sobre uma população dentro de um território, então seguramente encontraremos uma educação pública obrigatória cujos métodos e discursos garantam a posição suprema do grupo que detêm o poder. Mediante o subdesenvolvimento cognitivo das camadas inferiores através da mecanização e profissionalização metódico-instrumental do ensino público, se traça uma linha diferencial em relação à educação privada e todas as outras capacidades cognitivas que ela oferece – e que são superestimadas pela sociedade de conhecimento. No entanto ainda não posso precisar o que vem a ser mais maléfico ao desenvolvimento de uma capacidade popular lógico-cognitiva de abstração para problematizar-se e ao seu entorno: a educação massiva de viés ideológico que constrói sociedades ideologicamente homogêneas ou o esquecimento da educação pública pelas elites governantes situando ao estudante-cidadão e adulto-futuro em um cenário constante de precariedade e de sucateamento. Tanto de uma forma quanto de outra, é perceptível o subdesenvolvimento da capacidade de raciocínio da população não-elite. Nestes casos, durante a construção de si mesmos, que ocorre nas primeiras fases da vida antes da adultez, receberam os capitais suficientes e limitados por um planejamento muito bem estruturado sobre quais narrativas, símbolos, ideias e crenças a população poderá ter acesso.  Toda política unifocal ignora outras possibilidades. Toda limitação de acesso é limitação de capital, já que ter capital é ter acesso. Sem confundir o capital em si com os meios para adquiri-lo, quem tem capital sempre terá mais acesso a mais capital e o próprio capital tem a capacidade de transformar-se e de atrair mais capitais para si.

 

Existe um capital invisível chamado cultural que tem a ver com seu conhecimento, suas competências e seu comportamento, suas crenças e seus valores, assim como tudo aquilo que o define psicologicamente. A própria capacidade de problematizar-se e objetivar o seu entorno, cruzar informações e obter uma visão macro de mundo é um tipo de capital cultural, uma habilidade lógica que te liberta e te transcende, e que como todo capital é altamente estimado no seio da sociedade. O capital cultural de conhecimento é tão valorado quanto, e há distinções até na própria lei que favorece aos que têm ensino superior, assim como há uma relação íntima e direta com a qualidade da educação obtida e a qualidade das oportunidades futuras no mercado de trabalho: por isso estudantes de escolas privadas têm melhores chances no futuro e é aqui que mora uma das caras da desigualdade social da qual tanto falamos. O capital cultural da ideologia e do sentido de pertencimento também são estimados e muitas vezes categorizam os indivíduos em grupos. Há toda uma literatura da sociologia que discute a formação das unidades familiares segundo a afinidade político-ideológica. E como já vimos anteriormente, capital também é reconhecimento. Assim como se reconhece o rico por seu capital econômico, se reconhece ao acadêmico por seu capital cultural e também ao político por seu capital social (suas redes, networking e capacidade de propagar sua representatividade). Mas aí que mora o problema: se um governo se esquece da educação pública -a única cuja maioria pode ter acesso- como então podemos valorizar o capital cultural que se dá à população? Como podemos querer menos violência na sociedade adulta se votamos e pedimos por governos que sustentam um ambiente educativo público violento e desigual? Como podemos querer paz se o que pedimos é divisão? Se a sociedade se acostumou e já naturalizou um pensamento cultural que divide os outros de acordo com hierarquias invisíveis (quem merece e quem não merece, quem é perigoso e quem não é, quem tem morais e quem não, quem tem valores e quem não) é evidente que até o momento a educação oferecida não tem podido romper com este loop infinito da desigualdade.

 

Deste modo, tanto em sistemas fascistas e em ditaduras comunistas como em governos populistas de viés neoliberal onde a educação é um «gasto público», todo aquele que se vê como cidadão de direitos e deveres se perceberá como um «gasto» ao país, incluindo o estudante da rede pública (não o da rede privada). De outra forma, países que tem sustentado um fortalecimento das bases educativas, maior reconhecimento da classe docente pública e vê o sistema como um «investimento nacional» demonstra um histórico de governos comprometidos com o futuro do país. Temos então dois cenários extremos de políticas educativas no mundo: territórios de população subdesenvolvida onde governos disputam o poder de se manter no poder, e países com projeto de nação e preocupação com o futuro. No primeiro caso, a ideologia individual é com o ganho pessoal, com a manutenção de sua posição social. É um pensamento liberal, de individualismo e de esforço pessoal que, ainda que faça sentido em teoria, sustenta uma meritocracia que na realidade só existe pra quem tem ferramentas (ou capital) para, assim, fazer por merecer diante de uma sociedade com padrões tão distorcidos do que é ser merecedor.

 

Não é uma luta contra quem ganha bem ou quem tem casa na praia. É uma luta contra aqueles que têm mais do que poderiam gastar suas próximas quarenta gerações, daqueles que dormindo ganham mais dinheiro que toda uma família de classe média em um ano. Estamos falando destes que, dentro das salas escuras, em jantares refinados e encontros secretos comandam todas as ações, as reformas, as transformações que aumentam o sofrimento, a angústia e impactam nas capacidades da população geral. Estes a quem a justiça falha a favor. Quem não discute política não discute a si mesmo e seu papel no mundo dando lugar à violência e à permanência do que vem sendo ruim desde sempre. Evitemos todos os extremos e encontremos um lugar onde os discursos argumentativos não suscitem o ódio, mas para isso é necessário o exercício de reconhecer tudo que suas normas e valores excluíram por toda a vida. Tudo o que sei sobre o que é certo talvez me impeça de visualizar novas possibilidades, novos comportamentos e quem sabe, me impedirá de mudar meu futuro para melhor.

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