Reflexão Sociopolítica VII

Reflexão Sociopolítica VII

Por que insistir no golpe? Por que insistir na ditadura? Temos uma leviana ideia de golpe como algo brutalmente e militarmente ilegítimo e de ditadura como um ambiente político de extrema violência. Não sei com relação a vocês, mas a realidade me diz que o Brasil vive tudo isto agora, porém não nos formatos que nos acostumamos a acreditar. Escutei recentemente que “Quem votou em Dilma, votou em Temer”. Realmente, no formato das eleições republicanas brasileiras, o voto recai sobre a chapa, sobre o par de pessoas que representam ideologicamente o conjunto de ideias de seu eleitor. No entanto, da forma mais simples possível, quando insistimos em golpe, insistimos no súbito redirecionamento dos programas de governo, os mesmos que fazem parte do conjunto ideológico progressista, ganhador das eleições. Se ainda Temer continuasse os programas redistributivos do Partido dos Trabalhadores, então realmente a população poderia sentir-se mais confortável com o resultado do julgamento do Impeachment no ano passado, já que puniria à suposta culpada por uma infração. A ideologia progressista percebe a educação pública como investimento futuro, já a ideologia neoliberal a vê como um gasto social. Percebe a diferença do pensamento político que se estabeleceu contra a vontade democrática? O que se percebe com as reformas impopulares de viés liberal do novo governo, é que o que se quis não foi fazer justiça a uma possível ilegalidade administrativa da presidenta, mas sim contornar o desenho das políticas públicas no Brasil: frear investigações, reformar as políticas favoráveis à manutenção das elites e do poder e reduzir o acesso das camadas populares aos capitais culturais.

No centro de toda discussão política reside a distributividade dos capitais. Capital não é só dinheiro. Capital é acesso. Educação é tão capital como renda. Trabalho é tão capital como salário. E reconhecimento é tão capital como poder de compra. É aqui que o cidadão comum brasileiro, historicamente limitado em sua capacidade de crítica e de abstração deixa de ter acesso ao pensamento macro, que o possibilite pensar além de seus espaços locais, além de sua realidade sentida, escassos de capacidade de objetivação, categorização, comparação e relação entre elementos nos métodos lógico-cognitivos. Aqui reside a luta contra a Escola sem partido que limita o acesso ao pensamento crítico, aqui reside a luta contra as reformas impopulares de Temer que limitam o acesso às seguridades sociais e laborais, exatamente como reside o recorte nos gastos com a educação e com a saúde, limitando o capital cultural e social, ou o acesso à escola e à saúde digna. Ter acesso é ter capital. Quem estudou vai ter mais chances de trabalhar. Quem pôde estudar nas melhores escolas, teve dinheiro para transformá-lo em competências cognitivas, teve dinheiro para comprar tempo sem ter que trabalhar fora da escola, tudo isso é uma questão de acesso ao capital invisível. O mesmo reconhecimento que damos ao rico, damos ao PhD, damos ao advogado ou ao médico, damos aos políticos ou aos empresários bem sucedidos. Reconhecimento é um tipo comum de capital social. Quem não é reconhecido vive à margem, é um marginalizado. Por isso que os discursos extremistas insistem em bater na tecla da representatividade discursiva, das transformações e adequações linguísticas e nas novas terminologias inclusivas, instituindo representatividade linguística na realidade cotidiana.

Estamos em uma ditadura porque o próprio governo ilegítimo, em sua matriz ideológica, detêm os meios coercitivos e midiáticos que o favorece. Recentemente começou-se a verificar salas de aula em busca de “doutrinação comunista”, iniciou-se uma caça às hashtags e às publicações referentes aos políticos envolvidos nos escândalos. São ações básicas de um governo ilegítimo que quer se manter no poder a toda custa. Porém aí mora outra questão importante: quem governa não são os políticos. Uma vez que política é feita de representatividade e esta está intimamente conectada à matriz ideológica da elite governante, o parlamento brasileiro deixa a desejar em sua representatividade popular e favorece muito à execução de ações favoráveis às elites econômicas: empresariais, industriais e rurais. Depois que esta ideologia conservadora perdeu as eleições nacionais pela quarta vez consecutiva, e pela segunda vez diante de um governo não tão articulador como o anterior, a célebre frase de Aécio Neves, “não a deixaremos governar”, começou a fazer sentido no incremento da crise econômica interna, devido à certas políticas econômicas do governo Rousseff e também à falta de governabilidade da mesma em face a um parlamento inegociável e irredutível.  Houve um processo de Impeachment onde a maioria dos que votaram a favor da destituição da presidenta o fazia esperando safar-se de uma punição por seus atos de corrupção. Mas como suscita Jessé Souza, há um senso comum que naturaliza certa benevolência em relação à ambição privada do mercado em paralelo a uma demonização da ambição privada no âmbito político, e público. Os políticos são corruptos (e de fato são), enquanto que os empresários são perspicazes e legítimos trabalhadores. Até a elite financeira, que deve seu status econômico à descoberta dos juros compostos e fazem grana dormindo, têm seus ganhos tidos como legítimos ainda que se baseiem nos juros sobre crédito em ações que sabidamente são nocivas à economia doméstica, e que em muito incidem sobre a renda do cidadão. Lula soube articular com a elite econômica, ajudado pelo boom das commodities, pôde oferecer um cenário estável de crescimento com ampliação de crédito e com uma redução gradual dos juros. No entanto, Dilma articulava menos e permitia menos, e ao forçar a barra com uma política financeira que à elite econômica lhe pareceu absurda, começou-se a articulação para sua destituição.

Porém, a realidade da classe média é outra. A classe média não esteve infeliz devido à redução de juros da taxa SELIC, mas sim com a alta do dólar. A classe média não era contra as políticas de Joaquim Levy ou de Nelson Barbosa, mas sim contra compartir cenários de universidade ou graduação, aeroportos e bolsas de estudo, prêmios e reconhecimento com setores sociais inferiores. E assim, a elite consegue cativar a classe média, reunindo os elementos que compõe o sentido do inimigo da classe média: o nouveau riche do siglo XXI. Este é um debate distributivo. Cotas, juros, crédito, salário, mais médicos, ciências sem fronteiras, escola sem partido, reforma trabalhista, política, previdenciária, educativa, enfim, todos os debates políticos são distributivos. Fazem referência a como se distribuem os recursos culturais, econômicos e sociais. Como se exercita a cidadania. E é aqui que muitos pecam ao crer na legitimidade da meritocracia. A vida é muito mais fácil pra quem já é rico. A vida é muito fácil na classe média. O dinheiro faz viver mais fácil, aumenta tuas chances e te permite crescer intelectualmente. O hábito da leitura é mais comum na criança e no jovem que não trabalha. O hábito de pensar além de si e fora da caixa advém de uma criação onde houve tempo para desenvolver estas habilidades.

Há um golpe, pois a maioria dos eleitores democraticamente preferiram mais escolas, mais universidades e mais médicos, e não estamos tendo. Há uma ditadura, pois não há meio de criticar nem de sair destas reformas tão nocivas à saúde social. O caminho para uma maior paz é mais educação libertária, não educação funcional-profissionalizante. Educação era investimento, e agora passou a ser gasto, e ainda haverá quem reclame da violência. Estávamos no caminho certo da transformação cultural positiva, que leva tempo de gerações, da interculturalidade através dos intercambistas, dos médicos, dos estudantes. Tínhamos mais acesso, mais capital, porém teve a pedra do golpe no caminho, e nos trouxe de novo á estaca zero. Há quem reclame da violência, mas acha que se gasta muito com escola pra pobre. Há quem reclame da violência, mas crê que pobre é vagabundo e que ‘quem quer consegue’. Se assim fosse, a África estava cheia de mulheres e homens vencedores, e catadores de lixo teriam propriedade privada.

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