Reflexão Sociopolítica II

Reflexão Sociopolítica II

Ainda no tema do exercício crítico do nosso discurso, não lidamos com as palavras que falamos, mas sim com a linguagem-pensamento que usamos para dar sentido às nossas ações. Subconscientemente há um discurso implícito no ato de cruzar a rua quando vem alguém “perigoso” em sua direção, ou no ato de favorecer vínculos de amizade com algumas pessoas em detrimento de outras e inclusive na ação impensada de ser ou não educado ao abrir-lhe uma porta ou pegar algo alheio que caiu ao chão. Temos algumas hierarquias sociais construídas e que nos parecem tão naturais quanto a própria desigualdade, a miséria e a pobreza. A naturalização de certos fatos, mesmo que injusta e antinaturalmente perpetrados, é o que anula o ato de pensar criticamente esses fatos sociais, especialmente quando esta “naturalidade” é exatamente o status quo simbólico do senso comum projetado pela estrutura de poder econômico: nacionaliza um sentimento de ameaça no campo econômico privado e de indiferença nos campos social e político. Enriquecer vorazmente está bem, porém você sabe como se enriquece? Os meios de concentração e acumulação de capital são diferentes, varia entre as instituições e os indivíduos, além dos setores em que operam. Por exemplo: um reajuste salarial aumenta a renda de um presidente, juiz ou deputado, assim como a ampliação de seus auxílios e benefícios. A falta tributária sobre o lucro da pessoa jurídica permite mais renda ao empresário, assim como o sucateamento, a precariedade, e o baixo valor do trabalho que também incidem sobre o aumento capital do empregador. No caso dos bancos, as políticas financeiras atuam diretamente na evolução da renda da elite bancária, o que significa que uma baixa nos juros e um aumento do crédito resultam em menos renda aos bancários (sim, que ganham dinheiro dormindo) e maior distribuição de renda à população, o que injeta capital no mercado.

Foi Henry Ford quem disse: “Está bem que as pessoas da nação não compreendam nossos sistemas bancário e monetário, pois se soubessem, creio que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã”. Em outras palavras, uma a estrutura do poder econômico está formada ad hoc a construir uma nação cujo discurso incorporado não tenha a capacidade de articular certos elementos nocivos à própria sociedade. As pessoas não entendem como as políticas fiscais e monetárias funcionam, não compreendem o tripoder nem as alianças partidárias, não conseguem discernir os campos jurídico, civil e político, e nem sabem diferenciar-se entre classe social e classe econômica. No entanto, todos parecem saber como o Estado e a sociedade deve funcionar. E opinião pública, neste sentido, está permeada de muitas verdades falsas, não somente a nível superficial das manchetes manipuladoras dos meios de comunicação, mas a nível profundo, daquilo que cremos seguramente saber ou que já sabemos o suficiente. Tipo brasileiro que crê saber falar espanhol.

Neste sentido, cabe uma reflexão acerca do casamento entre a Sociedade de Conhecimento e o Neoliberalismo, enquanto um preza pela legitimidade da razão e do saber no meio social, o outro preza o individualismo mercantilista e a legitimidade do reconhecimento social do alto poder aquisitivo. Neste casamento, em um Mercado-nação como o Brasil, a educação pública historicamente tem sofrido, a propósito, com o sucateamento promovido por este ethos neoliberal que crê na meritocracia legitimadora dos esforços. A quantidade de brasileiras e brasileiros na escola e na universidade ascendeu absurdamente durante os programas progressistas no Brasil, e principalmente entre as classes menos privilegiadas, e isso é um ponto crucial à ameaça da manutenção do status quo simbólico da classe média. No entanto, como já discutimos anteriormente, fragmentações culturais como as hierarquias sociais em que cremos levam gerações para curar, e de 2016 a 2017, podemos perceber a real intenção de retornar a educação brasileira aos moldes da «economia social» que reduz à funcionalidade profissionalizante educativa toda a formação cidadã do indivíduo menos privilegiado. Como já discutiu Paulo Freire, é esta divisão que permite a dominação de uma sociedade passiva, apática e de visão limitada ao local por uma elite de capacidade lógica objetiva global. São capitais culturais diferentes que permitem hábitus distintos entre as classes conflitantes dentro do campo. Além do mais, o capital cultural do rico é um bem comprado, cujo tempo também se torna um recurso possível apenas por sua pré-capacidade econômica. Filho de pobre tem que trabalhar pra ajudar no sustento, o pobre rebelde que vai à escola, e que depois de muito mais esforço que o rico, aparece na nota do jornal ao terminar a faculdade, servindo de cardápio discursivo para todos aqueles que creem na meritocracia, e cuja naturalidade do mesmo não os faz pensar criticamente sobre os outros milhões de pobres que não tiveram a mesma sorte que o pobre rebelde.

Isso se chama divisão. Além de uma divisão funcional da capacidade cognitiva entre as classes promovida pelas estruturas reprodutoras da desigualdade (e estabelecidas pelos indivíduos no poder), há um distanciamento discursivo que opera como o limite simbólico entre os estratos sociais. Isso quer dizer que a maioria dos pobres não têm a cultura da leitura, da viagem internacional, dos idiomas, da música e das artes, no processo de incorporação de capital cultural durante sua formação, o que gera seu sentido de mundo, sua identidade e seus costumes. A percepção da diferença automaticamente aponta à divisão econômica, no entanto, as divisões culturais, essas invisíveis, operam com muito mais força na realidade social. Não falo aqui de superioridade ou de inferioridade nesta objetivação divisória entre a capacidade cognitiva dos indivíduos de cada classe. Porém, se agregamos o fator subjetivo à análise, encontraremos a mesma divisão entre sabedoria do corpo e sabedoria do espírito, que respalda nossos parâmetros de diferenciação social. E isso não é teoria, basta observar em si mesmo.

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