Reflexão Sociopolítica V

Reflexão Sociopolítica V

Ainda que cresçamos fisicamente, a nossa identidade, incluindo a nossos valores e crenças, se origina através transformação do pensamento. Como já discutimos, muitos pensamentos são incoerentes com a realidade: o racismo, a xenofobia, o ódio cultural, todos os sentimentos e crenças do nosso imaginário social. Se quisermos curar-nos do golpe, se queremos de fato ser um melhor Brasil amanhã, temos que começar a entender como funciona o modo em que damos sentido às coisas ao nosso redor, pois há muito pensamento individualista incoerente com gritos contra a violência e contra a corrupção. Como pensamos o mundo é exatamente como damos sentido a ele. Em uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abrano, os valores liberais como a meritocracia, o “faça você mesmo”, a competitividade e do individualismo se propagaram no imaginário social, ou no sentido comum das pessoas. No caso desta pesquisa, percebeu-se uma grande disseminação desta forma de pensar na periferia de São Paulo. No entanto, não é difícil encontrar estes pensamentos de que o “trabalho dignifica o homem”, “querer é poder” e “com esforço se consegue tudo” à uma maioria da população periférica a quem só lhe resta trabalhar na vida. Especialmente com a alta evangelização e a fácil manipulação de uma sociedade que nunca teve um longo projeto crítico de educação pública.

Como já falamos anteriormente, criticar o capitalismo e o neoliberalismo não é criticar o dinheiro, mas sim tudo aquilo que permite a pouquíssimos ter sempre muito mais e à maioria ter sempre muito menos ou quase nada. E o início de tudo é o pensamento, e as palavras com as quais pensamos automaticamente, quase sem pensar.  O problema de uma sociedade baseada na teoria da prosperidade e com escasso pensamento crítico é que ela vai sempre clamar por um país mais «justo» e «menos violento» enquanto insiste em crer na validez do pensamento individual. O problema não é ter dinheiro. O inimigo não é quem tem casa, carro e viaja. O inimigo é o pensamento que torna normal o fato de uma única família no mundo ser proprietária de metade dos recursos do mundo. Esta afirmação pode não ser verdadeira, mas está bem próxima da verdade em um mundo onde, na realidade, o 1% da população mundial detêm a mesma riqueza que o 99% restante, e apenas 8 indivíduos detêm o mesmo patrimônio que 0 50% menos rico. O exercício é treinar o pensamento. É saber que está bem ganhar dinheiro, mas é saber que as desigualdades existem, e que a meritocracia é uma mentira para legitimar ganhos estratosféricos.

Este debate é um debate distributivo. Uma família de classe média alta, cujos filhos puderam estudar, viajar, fazer música e idiomas, e tiveram tempo para estabelecer vínculos e relações de amizades duradouras, crerão que pobres assistidos por programas sociais, cujos filhos tiveram que trabalhar para sustentar a família, não se esforçam o suficiente. Há quem creia que pobre é pobre porque quer, e quem possui o poder de manipular o imaginário social, e o sentido da nossa realidade, são os ricos que também pensam, e se identificam, com os mesmos valores. Isso perpetua a desigualdade, comprar uma casa não, nem um iPhone.

O exercício não é ir aos extremos, não é quebrar bancos ou sequestrar nem matar gente, embora não haja revolução sem “quebrar os ovos”, o exercício é encontrar uma forma adequada e sustentável de combinar a ambição individual econômica com a solidariedade coletiva social. Não falo somente de dar ou doar dinheiro, mas ser sensível a estas ideias que dividem e hierarquizam os indivíduos ao seu redor. É discutir que se a propriedade privada deve ser legítima, então que haja propriedade pública suficiente à camada da população sem oportunidades de conseguir sua própria propriedade privada, e assim começar a pensar como rompemos com essa reprodução da desigualdade de modo benéfico para todos. A violência a qual todos criticam é produto de uma realidade de desigualdade onde o dinheiro é essencial, e que para a subsistência ou para a satisfação de certos prazeres econômicos, recorrerão à violência, muitas vezes em ato de desespero. Há quem seja mal por querer, só não posso crer que a maioria seja ruim, pois senão o mundo já teria explodido há muito tempo. Estarias disposto a lutar por medidas socialistas que pudessem gerar propriedade privada à totalidade da população, diminuindo assim a diferença econômica e social? Ou vai continuar a dividir trabalho de pobre e trabalho de rico, modos de pobre e de rico, entretenimento de pobre ou de rico? A luta política, de classes, a violência e até as guerras, têm um fundamento distributivo. A pergunta é: você quer tudo para si ou dá pra ser todo mundo igualmente feliz?

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