Reflexão Sociopolítica IV

Reflexão Sociopolítica IV

Criticar o capitalismo não é criticar dinheiro. Há um sistema alheio à nossa vontade que exige e impõe o uso do dinheiro no nosso dia-a-dia, inclusive de como a gente dá sentido à gente mesmo. Nossa construção é impactada pela estrutura econômica, incluindo aquilo que nos define, fazendo com que capital seja o ponto de entendimento para palavras como: sucesso, classe, pobreza ou riqueza, bem-estar, sociedade, justiça, etc. Criticar o capitalismo não é criticar quem tem dinheiro. O que se critica são os meios que os ricos têm de ficarem mais ricos enquanto a miséria só tem aumentado em um mundo tão cheio de recursos. Está bem ter dinheiro, até porque todo mundo que não tem dinheiro está à margem, ou marginalizado, fora do sistema e, diferente do que se diz, o «pobre» e o «miserável» são reconhecidos como tal. Nenhum pobre é pobre porque quer, e muitos ricos não escolheram ser ricos. Tanto em um grupo como em outro, há uma herança de capitais. E assim como se herdam dinheiro, também se herdam dívidas. Assim como se herdam similaridades físicas, herança genética, também se herdam pensamentos, comportamentos e hábitos, herança cultural.

Perceba que toda boa história tem um fundo de luta de classes: o pobre que entrou para a alta sociedade, a moça rica que se apaixona pelo mecânico e a garota da favela que defendeu sua tese de mestrado, a divisão ideológica de um clã medieval tornando amigos em inimigos, o rico que perdeu tudo, o presidiário que tenta uma nova vida. Há muitos fatores que tornam estas histórias tão interessantes, e é surpreendente o que se pode aprender disso. Primeiro, que em cada tempo de cada história, a justiça parece fazer sentido. Se queimávamos mulheres independentes e hereges como bruxas no século XIV era devido às leis da época, se ladrões eram decapitados na praça central durante as monarquias do século XVII, se davam nas condições daqueles dias e no caso de um ladrão executado em público hoje na Síria se explica nas leis do lugar. Ou seja, a forma com que a justiça atua depende de tempo e de espaço, porém isso não a faz menos legítima em nenhuma situação, lugar ou época. Há quem seja a favor da pena de morte e há quem seja contra. Nenhuma destas opiniões reduz a legitimidade dos textos jurídicos brasileiros ou japoneses. Isso quer dizer que a legalidade está longe do verdadeiro sentido de justiça. Há coisas legais que são injustas, como por exemplo o sistema tributário que pesa mais sobre o pobre e alivia o rico –principalmente a reforma tributária pensada por Temer-, o sistema penitenciário –principalmente com a soltura de Adriana Ancelmo cuspindo na cara da sociedade-, as leis trabalhistas –principalmente as novas reformas ilegítimas da previdência e da terceirização-, enfim… as leis são apenas legais, não são justas, até porque, e aqui vai uma das verdades da sociologia, a maior luta política acontece em torno à busca do poder de fazer as leis. E isso que, no Brasil de hoje, permite que deputados façam leis que favoreçam a eles mesmos e aos seus apoiadores econômicos particulares. Por isso há tantos deputados que tentam, de todos os modos, incluindo os ilegais, de permanecer no poder.

Porém nosso sistema é capitalista. Isso quer dizer que o capital rege e influencia diretamente em nossas vidas. Com dinheiro se pode comprar tudo, inclusive tempo. Voltando àquela história da herança cultural, o filho do rico tem tempo. O filho do pobre, na maior parte dos casos, tem que escolher entre estudar ou trabalhar. É um fato que no Brasil, hoje, o filho de um operário estude para ser operário, e o filho de um rico estude para ser diretor ou exercer qualquer posição de prestígio na sociedade: advogado, médico, arquiteto, engenheiro, empresário, político, banqueiro, etc. Todas aquelas posições que só são reconhecidas porque exigem conhecimentos específicos. Assim também, o pobre, com acesso educativo limitado, se torna torneiro mecânico, em uma escola profissionalizante. Não deixa de ser um conhecimento específico. Porém, como se discute nos campos da sociologia da educação e da educação política, a educação privada e a educação pública no Brasil têm objetivos distintos. No caso da educação particular, a educação holística envolve exercitar a leitura na infância, a sensibilidade às artes, a prática de pensar além do local, de objetivar-se e de compreender-se, muitas vezes inclui idiomas, intercâmbios, e se valora a criação do pensamento e do raciocínio lógico. A educação pública, como já falamos, está legislada pelos ricos, e em favor próprio, instituem –no caso de Temer, por exemplo- uma educação similar ao sistema ‘S’ de ensino: para trabalhar, exercer atividades repetitivas em plantas de fábrica, limitando sua ascensão social, sem a prática da pluriculturalidade, da tolerância, do pensamento crítico. Não está mal este viés metódico funcional educativo, mas não pode ser o único modelo acessível à sociedade através da escola pública. É nesta fase jovem que nos construímos como seres, com todas as verdades e mentiras sobre o mundo, e já com um sentido formado do bem e do mal.

Há uma população inteira de pensamento crítico subdesenvolvido. Isso faz com que entremos no segundo ponto de porque as histórias de cunho social são tão atrativas: elas nos fazem crer em uma meritocracia que na realidade não existe. Assim como legalidade e justiça são conceitos diferentes, também são distintos os conceitos verdade e realidade. Há verdades naquelas em que se crê e que não condizem com a realidade. Há quem creia na Terra plana, há quem não creia em dinossauros, há quem diga que todo socialista é ruim e há quem crê na completa benevolência do mercado. Desta forma, chegamos um pouco mais perto de compreender o que se critica do capitalismo: é o fato de tornar legítima a verdade da meritocracia quando na realidade estas histórias não ocorrem com tanta frequência. É a escassez destas histórias na vida real que as tornam tão atraentes. Ainda assim, como prova de que não estou falando tanta besteira, basta ler uma notícia de jornal de um morador de rua que leu livros do lixo e se tornou doutor, que vem toda uma sociedade dizendo que basta o esforço e basta querer, quando na verdade, sabemos que oportunidades não estão bem distribuídas e que, devido a uma força externa a nós, há quem tenha mais chances que outros. O golpe no Brasil foi isso. Foi uma legalidade jurídica em forma de Impeachment, que disseminou uma verdade de sentido comum de crise econômica, quando na realidade prática demonstrou uma luta de classes em forma da injustiça política do golpe. Foi impeachment e foi golpe. Ter dinheiro é bom, porém como tudo na vida, o bom mesmo é ter equilíbrio. Exceto pela miséria, para alguns, esta pode seguir existindo.

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