Reflexão Sociopolítica I

Reflexão Sociopolítica I

Toda discussão política envolve um ponto de inflexão crucial entre a solidariedade distributiva e a legitimidade acumulativa. De um lado as políticas de um Estado forte com programas de distribuição capital -econômico em forma de renda, cultural em forma de desenvolvimento racional e competências metódicas, social em forma de reconhecimento- e do outro um Estado mínimo que não intervenha em um Mercado imponente, cuja liberdade prática favoreça a reconcentração destes mesmos capitais, incluindo os invisíveis, reproduzindo assim a desigualdade. É muito comum, no Brasil atual, a rigidez conceitual na percepção do posicionamento político alheio, especialmente entre as classes trabalhadoras, ainda que estejam de acordo em muitos elementos. Interessante incluir a classe econômica média na classe social trabalhadora, quando esta mesma, no Brasil atual, se objetiva e se autopercebe segundo seu poder aquisitivo. Como profere o sociólogo Jessé Souza, o 1% mais rico, na topografia do social, não se inclui no campo da luta política entre a classe média conservadora que retoma seus espaços e as classes populares que exigem níveis mais altos de cidadania como acesso a capitais como participação política, educação, relações estáveis de vida, renda e reconhecimento social, etc.

No entanto, estamos em crise. E o que se percebe é que não pudemos mudar muita coisa a nível cultural, das raízes escravocratas ainda presentes na prática cotidiana e que a sociedade brasileira insiste em negar. Ainda que a classe média, a nível econômico, tenha se expandido devido aos programas redistributivos como Bolsa Família, Cheque Cidadão, Auxílio às PME’s agrárias e familiares, entre outras políticas financeiras invisíveis à população como a redução de juros, o aumento do crédito e os subsídios ou isenções (incidindo na realidade prática econômica da população); no nível cultural, as mudanças necessitam ser compreendidas com outros parâmetros. O tempo da mudança econômica, com especial contribuição da tecnologia, é o contorno rápido e metódico de crises econômicas e financeiras, com recuperação das bolsas de valores da noite para o dia. A crise brasileira não é, nem nunca foi econômica. A crise é cultural, e neste nível os tempos não são nem rápidos e nem metódicos e nada se recupera da noite para o dia, nem em doze anos de governo progressista que em muito promoveu a redistribuição de capital cultural a través do Universidade para Todos, os IFF’s, o Ciências sem Fronteiras, e os programas-parte do Plano Nacional de Educação. Sem mencionar os programas Mais Médicos que causaram um impacto extremamente positivo em localidades rurais e indígenas de difícil acesso, porém não o suficiente para romper com a linha reprodutiva da estrutura de poder.

Em resumo, a sugestão do autor brasileiro é objetivar e discutir nossas raízes escravocratas e como incidem na própria construção da nossa consciência. Os mitos nacionais e as narrativas que naturalizam certas práticas sociais injustas viabilizam ações incoerentes no cotidiano brasileiro. O pragmatismo do sentido comum não permite questionar certas premissas tidas como verdade elementar, fazendo com que a mesma exploração do trabalho, a mesma desigualdade social e a mesma legitimação da violência da época da escravidão possam pautar a realidade brasileira no século XXI, obviamente transvestidos com outras formas.

O fato do brasileiro de hoje estar retrocedendo anos de conquistas trabalhistas e civis só demonstra o fato de que a realidade é sim pautada pela gestão pública, e que a mesma não tem nada que a ver com a democracia, e por isso discutir política é tão importante. A democracia no Brasil é tão discutida quanto a nossa escravidão. Assim como a discussão da escravidão termina na legitimidade da Lei Áurea, em um campo discursivo cuja miscigenação positiva do mito nacional do Homem Cordial brasileiro nega qualquer suspeita de desigualdade racial, a democracia se reduz às eleições diretas bianuais, sem participação efetiva da população no cenário público. Desta forma, no pacto do casamento entre Estado e Mercado, ou a democracia republicana e o neoliberalismo da propriedade privada, o campo econômico se encontra muito mais articulado que o campo político. Encontramos então, uma nação que “sabe muito” sobre como funciona a sociedade sem de fato compreendê-la em exaustão. Isso em muito se deve ao impacto deste ethos neoliberal no sistema educativo que, funcional e metodicamente deixa de desenvolver qualidades cognitivas que permitam o questionamento, a crítica e a objetivação de si mesmo, fazendo com que vivamos em uma sociedade do falso conhecimento, onde a razão prevaleça sobre a verdade.

O cientista político argentino Ernesto Laclau também discute esta questão da articulação discursiva para que possamos dar sentido às nossas vidas. Um Mercado livre benevolente de ganhos estratosféricos só possui ideias positivas com relação à natureza de suas práticas, enquanto que o Estado corrupto, supostamente democrático, é gestado por uma minoria plutocrática diante de uma massa passiva e facilmente influenciável. A liberdade econômica é abertamente promovida, e a liberdade civil é cautelosamente discutida por gestores e movimentos sociais, e na maioria das vezes arraigada a ideais conservadores. Cabe notar que a influência desta lógica instrumental do raciocínio do poder, ainda que se mostre na divisão da sociedade brasileira, reside na construção dos discursos postos em combate no seio social, como a incitação da guerra de narrativas que permeia a luta política no Brasil de 2016. Como diz Laclau, é a falta de articulação de uma cadeia de elementos acerca do inimigo político que me fazem ter ódio dele, ao invés de compreendê-lo e tentar articular um sentido que abarque às duas propostas. Assim, ainda que “coxinhas” e “esquerdopatas” reclamem da mesma violência, da mesma terceirização, do mesmo desmonte da previdência, da mesma precariedade da educação pública e sejam igualmente contrários aos reajustes salariais estratosféricos, serão, por não articularem seus elementos, eternamente antagônicos. E submersos em sua luta, seguirão incapazes de perceber o verdadeiro inimigo no topo da pirâmide social. O que aparece depois desta desmistificação é uma hierarquia social em cuja topografia residem os verdadeiros inimigos da nação, este 1% que não se sente como povo e que detêm o poder de reter mais poder, e por não ser povo, não está nesta luta, a divertir-se entre banquetes e viagens internacionais. Enquanto a sociedade, fragmentada, dá tiro pro alto e aponta na direção em que caia a bala, geralmente com uma visão pautada pelos meios de comunicação devido à falta desta lógica crítica.

Temos que discutir em termos de sociologia política as distâncias invisíveis que, de modo subjetivo, hierarquizam a sociedade em base a fundamentos que, distante da lógica, se legitimam na propriedade de “natural” com que estes ideais dão sentido à realidade social. Em outras palavras, toda estratificação que fazemos está embasada em preceitos culturais, construídos de forma externa e incorporados ao nosso sentido prático da realidade, que em nada tem a ver com uma razão lógica bem fundada em argumentos válidos (como o racismo, a invisibilidade dos miseráveis em situação de rua, etc.) e em muito tem a ver com a articulação destes discursos e como os mesmos se inserem nos fluxos comunicativos das camadas trabalhadoras (classes média, popular e miserável) e que dão sentido a toda uma nação.

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One thought on “Reflexão Sociopolítica I

  1. Muito valida ,sempre, a expressao da indignacao que aflige. Nela estao contidas questoes subjetivas e logicamente construcoes ideologicas.
    Penso que poderias fazer uma separacao maior entre o que sao efeitos subjetivos e objetivos provenientes da situacao politica atual.
    Outra dica e’ que podes destrinchar o conceito de “ethos neoliberal”.
    E continua com a catarse. Com adequacao e etica. Sempre. Torco por ti !

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